A casa onde morreu Pablo Escobar: em Medellin, não gostam da fama que ganhou o patrón





Visitamos a casa onde Escobar morreu e percebemos que a “fama” que ganhou com Narcos não é muito bem vista na Colômbia. Ainda assim, há quem aproveite para fazer negócio: o irmão do patrón, é um deles.

A série do Netflix Narcos virou todas as atenções dos seus fiéis seguidores no último ano para a Colômbia, e em particular para Medellín: a terra do patrón. Independentemente de no início de cada episódio se poder ler que algumas das cenas ali reproduzidas são ficção, muitos acreditam piamente na realidade ficcionada.

Movidos pela mórbida curiosidade associada ao crime e à violência, há quem queira sempre saber mais e vem até Medellín à procura do “encanto” de Narcos. Parece um contrassenso a existência de um glamour em torno de alguém a quem foram atribuídas mais de seis mil mortes.

Um fim prematuro esteve sempre à espreita, entre o final da década de 80 e o início da década de 90, para quem se colocava no caminho deste homem. Não há quem não conheça e repita vezes sem conta a célebre frase: “plata o plomo” (dinheiro ou chumbo). Mas façamos bem as contas: Pablo Escobar morreu em 1993, há precisamente 23 anos, um passado longínquo para os locais, mas que hoje parece tão presente para os estrangeiros que vêm até Medellín.

E agora que nesta segunda temporada se retrata a morte de um dos mais famosos narcotraficantes do mundo, nada como satisfazer a curiosidade e visitar a casa onde ele sucumbiu.

O barrio Los Olivos fica no setor ocidental da cidade de Medellín. A rua que procuro está secundada por um curso de água que segue o caminho das suas certezas, enquanto cumprimenta as árvores que se inclinam à sua passagem e os pássaros que nelas se empoleiram.

A casa onde morreu Pablo Escobar, em Medellin
A casa onde morreu Pablo Escobar, em Medellin

A rua é grande, estende-se por ali fora, e as casas são baixas mas acolhedoras, algumas com um pátio na entrada. As pessoas passam e sorriem, enquanto os seus cães vão pela trela. Procuro mais para a frente, mais para trás. O número da porta é o 45D-94, perto da carrera 79, mas nem se vislumbra uma placa, nada que aponte o local.

Passa uma senhora com uma sombrinha, para se proteger do inverno de 30 graus que aqui se faz sentir, e decido interpelá-la. Sorri, nem precisamos de trocar de nomes, sabe ao que venho. Lá recuamos uns metros até à casa. Nada de especial, igual às outras, não tão igual porque foi reformada em 2009. Tem mais um piso que a do lado, e tem uma placa a dizer “Arrienda”.




Nada mais, nem uma pequena alusão ao facto, nem para inglês ver. E não, não surpreende. É passado para estas pessoas, ficou lá atrás e não querem que volte mais. Mesmo esta senhora, que por aqui sempre viveu, recorda-se apenas do que viu pela televisão há 20 anos, e pouca importância lhe dá.

Ora, numa pesquisa rápida, percebe-se que esteve abandonada durante 15 anos, tendo sido pilhada em busca de dinheiro escondido, e depois serviu de refúgio a drogados e ladrões, de tempos a tempos. Até que Osmar Restrepo a comprou, em 2008. À última hora confessaram-lhe que era a casa onde tinha morrido o narcotraficante, nada que o intimidasse. Reformou-a e a colocou tal como a vemos hoje, igual às outras.

Carlos, taxista de Medellín que calcorreia a cidade há vários anos, transporta-me de Los Olivos para o centro, enquanto desfia a sua raiva por esta personagem. “Esse tipo era uma porcaria, tenho muita raiva dele. Matava polícias a troco de milhões de pesos, tinha muita gente a trabalhar para ele. Agora deve estar a arder no inferno. Esta cidade é muito forte e levantou-se. Hoje está bonita.”

Pablo Escobar retratado por Botero
Pablo Escobar retratado por Botero

E a sua história recente comprova-o. Em 1991, Medellín estava no topo das piores estatísticas como a cidade mais violenta do mundo. Hoje acaba de ganhar o Lee Kuan Yew World City Prize, uma espécie de Nobel para as cidades, a comprovar a sua modernidade e o exemplo que é hoje para a restante América do Sul.

O presidente da Câmara de Medellín, Federico Gutiérrez, não escondeu o seu passado na hora da atribuição deste prémio. Reconheceu que a cidade “está cheia de cicatrizes, mas são cicatrizes que supõem o fim de uma dor”. E os motivos para ter recebido tamanha distinção são vários. Medellín está situada no vale da cordilheira central dos Andes e é composta por vários “barrios” que albergam quem menos tem. Como forma de estas pessoas não se sentirem arrumadas a um canto, onde antigamente ninguém queria nem se atrevia a ir, encontraram-se soluções de transportes que as incluem.

Medellín orgulha-se de ter a primeira linha de teleférico do mundo usada como transporte público e assim contornar o sobe e desce de quem vive nas encostas. O sistema foi posto a funcionar em 2004 e já conta com três linhas. E cada estação final está devidamente integrada com o metro que percorre toda a cidade para que se ganhe tempo e qualidade de vida.

Acrescente-se ainda que este mapa de mobilidade conta com elétricos e autocarros. E, enquanto se percorre o caminho em busca do destino final, paga-se apenas um bilhete que custa 61 cêntimos, um preço que vai ao encontro de um país onde o salário mínimo é de 210 euros. E mesmo quando deixar a rede de transportes tem à sua espera uma estação pública de bicicletas. Existem 51 espalhadas pela cidade e um total de 1.300 bicicletas. Inscreve-se no sistema, tira a bicicleta e não paga, não precisa. É gratuito.

Aqui até as escadas rolantes são transporte público. Na Comuna 13, mais precisamente no barrio “Las Independencias”, foram investidos 10 mil milhões de pesos (cerca de 3 milhões de euros) para que as 350 escadas de cimento fossem substituídas por esta tecnologia.



Mas as opiniões só ganham força pela voz de quem cá mora. Manuel Medina é um ‘host’. Fluente em várias línguas, o seu trabalho passa por receber cidadãos de todo o mundo em eventos de escala mundial que cá e realizam. Mais recentemente esteve a trabalhar no Fórum Mundial de Economia na América Latina, que Medellín acolheu em junho.

É um cidadão orgulhoso da cidade que o viu nascer e crescer. Descreve-a como “resiliente, aguerrida, uma cultura de gente trabalhadora”. Não esquece o passado, mas orgulha-se mais do que está para vir: “Medellín viveu uma etapa difícil associada à violência e à criminalidade organizada. As cicatrizes ainda estão num processo de cura. Somos um povo que se supera, otimista e isso ajuda muitíssimo”.

Para ele, qualquer piada sobre o patrón e a sua história é como um insulto pessoal. Defende a sua honra e a dos seus. Não se brinca, nem se idolatra quem fez escorrer tanto sangue, que ainda hoje mancha a cidade as ruas que, por mais vezes que sejam lavadas, continuam a ter memória.

Vista do Pueblito Paisa @Miguel Henriques
Vista do Pueblito Paisa @Miguel Henriques

“A mim chateia-me o desconhecimento por parte das pessoas que assistem à série de entretenimento à procura mitificação de uma personagem. Não é a Colômbia atual, nem a Medellín atual”, sublinha. E enquanto ‘host’, o que recomendaria a quem cá vem? “Gosto muito do Pueblito Paisa porque é um pulmão da cidade. É também um dos cinco miradouros a partir do qual de se tem uma visão geral desta cidade. Quem for a Medellín e não passar no Pueblito Paisa não foi a Medellín. Outro espaço é a Plaza Botero, onde estão expostas algumas das esculturas. É algo que foi revitalizado e traz a arte às pessoas. O escultor que dá nome à praça sempre disse que a arte é para todos e não deve ficar fechada em quatro paredes. É inclusivo, democrático e por isso gosto muito”.




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