Atlético Nacional, o grande campeão de 2016




Apesar da derrota no Mundial de Clubes, equipe de Medellín limpou sua imagem, antes ligada ao narcotráfico, com gestos de solidariedade à Chapecoense

Atlético Nacional conquistou a Libertadores com campanha excepcional - e polêmicas de arbitragem (Luis Acosta/AFP)
Atlético Nacional conquistou a Libertadores com campanha excepcional – e polêmicas de arbitragem (Luis Acosta/AFP)

Dezenas de milhares de torcedores vestindo verde e branco lotaram o estádio Atanásio Girardot e seus arredores, em Medellín, e cantaram “Vamo, vamo Chape”, em solidariedade ao adversário da final que não houve, dias depois do trágico acidente aéreo em solo colombiano. O incrível gesto de compaixão cativou os brasileiros e confirmou um cenário que já se desenhava durante a Copa Libertadores: o Club Atlético Nacional S/A, de Medellín, se descolou da imagem de time maldito – por sua nebulosa ligação com o narcotráfico nos tempos de Pablo Escobar –, e passou a ser visto como exemplo de boa conduta. Um verdadeiro campeão do mundo – mesmo com derrota para o Kashima Antlers na semifinal do Mundial de Clubes, no Japão.

Em gesto de rara nobreza, o Atlético Nacional abriu mão do título da Copa Sul-Americana – a Conmebol confirmou o título à Chapecoense – e perdeu a chance de se tornar o único clube da história a levantar os dois principais troféus do continente no mesmo ano. Dias depois, o time falhou no objetivo de conquistar o Mundial – como já havia ocorrido em 1989, diante do Milan – mas a equipe deixou o gramado em Osaka aplaudida por todos. O ano de 2016 consagrou o novo Atlético Nacional, admirado em todo o planeta. Mas não foi sempre assim em seus 69 anos de história.




História

Goleiro René Higuita, um dos grandes ídolos (Pedro Ugarte/AFP)
Goleiro René Higuita, um dos grandes ídolos (Pedro Ugarte/AFP)

Fundado em 1947, o clube de Medellín é o mais popular e vencedor da Colômbia. Tem 15 títulos da liga nacional e é o único clube colombiano bicampeão da Libertadores. Sua fanática torcida está entre as dez maiores de todo o continente, com mais de 11 milhões de adeptos – um fenômeno de popularidade, já que o número é mais de quatro vezes maior do que toda a população de toda a cidade de Medellín. O time viveu sua primeira fase dourada no fim da década de 80 e início dos anos 90, quando o Atlético serviu como base da seleção colombiana, com jogadores de destaque como Higuita, Leonel Álvarez e Faustino Asprilla.

O Atlético costuma lotar suas partidas no estádio Atanasio Girardot e mantém forte rivalidade com o outro clube da cidade, o Independiente. Os clássicos contra o Millionarios, de Bogotá, e contra o América, de Cali, também estão entre os mais apimentados de todo a América do Sul e, nos últimos anos, cresceu sua animosidade com o Santa Fé, de Bogotá, outra equipe colombiana que conseguiu resultados relevantes nas competições sul-americanas.

Aristizabal, maior artilheiro do Atlético Nacional (Gerardo Gomez)
Aristizabal, maior artilheiro do Atlético Nacional (Gerardo Gomez)

O maior artilheiro da história do clube é bastante conhecido dos brasileiros: Victor Hugo Aristizábal, que marcou 206 gols pelo Atlético. Já o jogador brasileiro que mais marcou em Medellín é pouco conhecido por aqui: Aparecido Donissete de Oliveira, conhecido como Sapuca, que atuou pelo clube na década de 80.




Na última década, passaram pelo Nacional, sem grande sucesso, o atacante Marcelo Ramos e o lateral Baiano.

O título da Libertadores de 1989 veio em uma decisão por pênaltis histórica e quase interminável, com quatro defesas de Higuita contra o Olímpia, do Paraguai:

Narcotráfico: tabu em Medellín
O Atlético Nacional faz de tudo para desassociar sua imagem da de Pablo Escobar e do famoso cartel de drogas de Medellín. O título da Libertadores de 1989, por exemplo, é cercado de controvérsia. Há suspeitas de que Escobar tenha subornado árbitros e jogadores durante esta e outras competições da época. O mesmo teria ocorrido com as equipes de Calí, por ordens do outro grande cartel do país, numa época em que árbitros e jogadores foram assassinados.

O mais curioso é que Escobar, morto em 1993, era torcedor do rival Independiente de Medellín. Fãs do Atlético dizem que isso comprova que nunca houve interferência real do traficante mais famoso de todos os tempos, enquanto seus detratores acreditam que Escobar ajudava todas as equipes de Medellín, incluindo o rival, pois isso aumentava sua influência política e fortalecia seu império de drogas.




Os dois principais jogadores do time campeão da Libertadores tiveram problemas com traficantes. O zagueiro e capitão do time Andrés Escobar foi assassinado em 1994, dias depois de marcar o gol contra que desclassificou a Colômbia da Copa do Mundo nos Estados Unidos. Já o cabeludo goleiro Higuita ficou de fora daquele Mundial pois havia ido a prisão meses antes, acusado de participação de um sequestro organizado pelo cartel de Medellín.

O tema é tratado como tabu no Atlético: jogadores da época negam ligação do clube com o tráfico – ainda que nomes como Higuita e Asprilla tenham sido amigos íntimos de Escobar – e os atuais dirigentes repetem que não podem falar sobre algo que não vivenciaram. No fim da década de 90, o clube entendeu que a melhor forma de limpar sua imagem seria olhar para frente.

Pablo Escobar durante inauguração de um campo em Medellín (Reprodução)
Pablo Escobar durante inauguração de um campo em Medellín (Reprodução)

Atlético S.A: exemplo de gestão
A grande virada do Atlético Nacional aconteceu há 20 anos. O clube mais popular da Colômbia foi comprado pelo grupo Ardila Lülle, em 1996, e incorporou o “S/A” (sociedade anônima) em seu nome. A empresa do milionário Carlos Lülle é dona de conglomerados de mídia e também da marca de refrigerantes Postobón, o principal patrocinador do clube.

Com o aporte financeiro, o clube se tornou uma referência de gestão em todo o continente. Construiu um moderno centro de treinamento, valorizou sua categoria de base e conseguiu manter jogadores assediados por gigantes europeus, como o atacante Miguel Borja – destaque da Libertadores, carrasco dos clubes brasileiros.

Miguel Borja, o carrasco de brasileiros (Fredy Builes/Reuters)
Miguel Borja, o carrasco de brasileiros (Fredy Builes/Reuters)

Na contramão do futebol sul-americano, o Atlético Nacional teve apenas dois treinadores nos últimos quatro anos. Antes do atual comandante Reinaldo Rueda, o time foi dirigido por um velho conhecido dos brasileiros: Juan Carlos Osorio. O hoje treinador da seleção mexicana se transferiu ao São Paulo em 2015, depois de conquistar três campeonatos colombianos pelo Nacional, onde é ídolo.

Mas, apesar do futebol bem jogado – perdeu apenas um jogo em toda a Libertadores – e a organização exemplar, o Atlético não escapou das polêmicas em 2016. Torcedores e atletas de Huracán, Rosário Central, São Paulo e Independiente Del Valle – os clubes que enfrentou na fase final da Libertadores – reclamaram e muito de erros de arbitragem. O fato de o Atlético ser, sem exageros, “a maior empresa da Colômbia” e de a Conmebol estar envolta em inúmeros escândalos de corrupção contribui ainda mais para a má fama da equipe.

Tudo mudou, porém, no fim de novembro, com o emocionante gesto de solidariedade às 71 vítimas do acidente envolvendo a Chapecoense. Independente dos resultados, o Atlético Nacional foi o campeão de 2016.




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