‘El Chapo’ é o novo Pablo Escobar?





Fugas surpreendentes, inclusão na lista dos mais ricos da revista “Forbe”s, a reputação de criminoso mais procurado do mundo e um indiscutível talento para enganar autoridades.

São características que fizeram a fama do notório traficante colombiano Pablo Escobar, mas que poderiam tranquilamente descrever a trajetória do traficante mexicano Joaquín ‘El Chapo” Guzmán, recapturado na semana passada.

Um marcou com violência a história de seu país nas décadas finais do século 20. O outro se tornou o traficante mais procurado do mundo no início do século 21.

“El Chapo” foi recapturado na sexta-feira e agora enfrenta a ameaça que Pablo Escobar tanto tentou evitar: a extradição para os Estados Unidos.

Então, seria “El Chapo” Guzmán o “novo Pablo Escobar”?

Vida paralelas
As semelhanças entre um e outro são muitas. Os dois viraram líderes de enormes organizações criminosas usando esperteza, ambição e crueldade.

Ambos também “aprenderam” com criminosos famosos.

Em seu livro El Patrón del Mal, o jornalista colombiano Alonso Salazar conta como, nos anos 1970, o jovem Pablo Escobar virou guarda-costas de Alfredo González, contrabandista colombiano conhecido como “El Padrino”. Assim ele conheceu rotas de contrabando e os segredos do submundo, que seriam extremamente úteis depois.

Da mesma forma, “El Chapo” Guzmán aprendeu sua “profissão” nos anos 1980, ao lado de Miguel Ángel Gallardo, o “Chefe dos chefes”, líder do cartel de Guadalaraja, que, nesta época, chegou a controlar quase todo o tráfico de drogas do México para os EUA.

Gallardo foi detido em 1989 pelo assassinato do agente da DEA Enrique “Kiki” Camarena. Segundo o jornalista mexicano Ricardo Ravelo, em seu livro Los capos, las narco-rutas de México, foi neste mesmo ano, no de sua prisão, que o “Chefe dos chefes” decidiu dividir seu império.

O livro diz que “El Chapo” ficou com as cidades de Mexicali, no Estado Baja California, e de San Luis Río Colorado, em Sonora.

Outra coincidência é que ambos conduziram sangrentas guerras contra cartéis rivais – que em outros momentos chegaram a ser aliados.

Quando estiveram na prisão – Escobar em La Catedral, e Chapo em Puente Grande -, viviam cercados de luxo e continuaram a controlar suas organizações.

Escobar, inclusive, fez com que fossem levados à cadeia alguns de seus rivais e os assassinou ali mesmo.

Os dois fugiram quando assim o julgaram necessário – e sem maiores problemas.

Em 21 de julho de 1992, Escobar deixou La Catedral porque soube que seria levado para outra prisão.

“El Chapo” fugiu duas vezes: em 19 de janeiro de 2001, porque, segundo Anabel Hernández no livro Los señores del narco, temia ser extraditado para os EUA; e em 13 de julho do ano passado, por um túnel de 1,5 km de extensão do presídio de segurança máxima Altiplano.

Escobar e Chapo também tinham uma forte ligação com suas regiões de origem –Antioquia e Sinaloa, respectivamente– onde foram capturados.

E o destino reservou a eles uma outra irônica coincidência: Pablo Escobar foi rastreado e acabou sendo morto em 1 de dezembro de 1993, em um bairro de classe média de Medellín, devido a uma chamada feita por celular.

Além disso, um nova coincidência pode estar por vir: enquanto Escobar foi retratado em duas séries de TV (O Patrão do Mal e Narcos, esta última com o brasileiro Wagner Moura no papel do traficante), “El Chapo” inspira uma série da TV mexicana prevista para estrear no final do ano.




Diferenças
Mas as diferenças também são grandes.

Ao contrário de Pablo Escobar, que chegou a ser eleito suplente na Câmara, “El Chapo” Guzmán nunca se envolveu diretamente com política.

Há relatos de que Escobar, em algum momento, teria chegado a alimentar, brevemente, o sonho de conseguir a independência do Estado de Antióquia – evitando, assim, sua extradição para os EUA.

Mas “El Chapo”, pelo que se sabe, não tem pretensões políticas.

Também não se conhece nenhum esforço seu para criar uma base social de apoio, com a construção de habitações sociais ou campos de futebol, como fazia Escobar.

Este não escondia suas ambições e intenções de se converter em figura pública; e isso acabou levando os jornais colombianos – principalmente o El Espectador, cujo diretor, Guillermo Cano, foi morto a mando de Escobar – a vasculhar a vida do líder do cartel de Medellín e expô-lo como traficante.

Além de se manter mais discreto, Guzmán não iniciou um confronto direto contra o Estado, como Escobar, que entre o final dos anos 1980 e início dos 1990, colocou o governo contra a parede – conseguindo até que a extradição fosse especificamente proibida pela Assembleia Constituinte de 1991.

Até o final, Escobar foi o chefe indiscutível do cartel de Medellín, que desapareceu após sua morte.

O cartel de Sinaloa, de acordo com especialistas mexicanos, é mais uma “federação” de organizações, e “El Chapo”, ainda que seja o rosto mais conhecido do cartel, é apenas um de seus chefes.

Além de ser uma “federação”, o cartel de Sinaloa opera como uma enorme multinacional, com múltiplos negócios (como a metanfetamina) e com tentáculos que se estendem por vários continentes – segundo agência de segurança dos EUA, atuam em mais de 50 países.

Chegaram onde o cartel de Medellín apenas sonhou chegar.







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